O campo da direita e suas frações de classe

O campo da direita e suas frações de classe – Entender que a sociedade está recortada em duas classes sociais, em que uma classe social detém os meios de produção e a outra classe social precisa se sujeitar a aceitar as leis e normas dos donos dos meios de produção, é também entender que há dois pólos políticos ideológicos antagônicos em que uma delas objetiva perpetuar a sociedade tal qual ela está, e outra objetiva destruir tal sociedade e construir outra em que não haja classes sociais, pois não haveria os donos dos meios de produção e dessa forma, não existiria os que precisariam se sujeitar as leis e normas estabelecidos pelo indivíduo que se auto-intitularia “dono”.

O entendimento acima é o princípio político ideológico fundamental que separa os dois pólos políticos ideológicos existentes no campo das idéias políticas.

No entanto, nada na vida política social cultural e econômica se dá de forma linear e de anexação automática a um dos dois pólos ideológicos, fundamentalmente em relação aos que precisam se sujeitar a aceitar as leis e normas dos donos de produção para poder tentar se sustentar (trabalhadores e trabalhadoras).

As palavras acima, em síntese, significam que, quem detém os meios de produção e que se auto intitulam “donos”, eles têm consciência política social econômica e cultural do que isso acarreta em toda a sociedade, em todas as relações sociais.

Já os que precisam se sujeitar a aceitar as leis e normas dos tais donos dos meios de produção, que são os trabalhadores e as trabalhadoras, não tem essa distinção política ideológica que os que se dizem “donos” têm, e por isso, acabam aceitando como verdades absolutas o que tais “donos” dizem.

E acabam aceitando que a vida miserável que levam é fruto da engrenagem natural, sendo até da vontade de um “deus”, no entanto, na vida política social econômica e cultural nada é natural, tudo é construído socialmente para atender interesses e objetivos de uma determinada classe social.

O campo da direita e suas frações de classe
O campo da direita e suas frações de classe

O campo da direita e suas frações de classe

Estes dois pólos políticos ideológicos antagônicos são “direita” e “esquerda”. Os que fazem de tudo para que nada mude, para que não haja mudança social e que se acabem as desigualdades sociais, são do campo da “direita”.

Já os que pertencem ao campo político da “esquerda”, entende que é possível e fundamental que se destrua a sociedade desigual socialmente e que se construa outra sociedade em que todos serão socialmente iguais.

Ao termos a compreensão do princípio ideológico fundamental que separa e torna inimigas os dois campos políticos ideológicos da “direita” e da “esquerda”, que é o entendimento de que é natural e legítimo a existência da figura dos donos dos meios de produção, que são os capitalistas donos de fábricas, das empresas, e de outro campo político que entende este fato como algo construído e nada legitimo, pois atacaria e ataca frontalmente e violentamente a existência de outro indivíduo, como um ser que deveria ser igual socialmente, veremos resumidamente o que são as tais frações de classe, que existe dentro dos dois campos políticos existentes.

As frações de classe é quando há no seio dos campos políticos da direita e da esquerda posicionamentos diferentes em determinadas áreas, mas que estão alicerçadas no mesmo princípio político ideológico.

Sebastião Velasco e Cruz , ao se referir ao campo da “direita”, diz algo que também podemos dizer sobre o campo político da “esquerda”, que é: “(…) o termo “direita” não remete a uma corrente de pensamento particular, nem sequer a uma família de pensadores, de partidos ou movimentos políticos e sociais” p. 14.

Portanto, as frações de classe trazem consigo um conjunto de indivíduos que por mais que estejam dentro do mesmo campo político, como, por exemplo, na direita, possuem entendimentos, referências políticas distintas e até conflitantes entre si, e que por isso, na prática política social, tenham práticas e posições diferentes, mas nada que venha a atacar o princípio fundamental que os une enquanto classe social, que é a defesa da propriedade privada e consequentemente da existência de indivíduos que precisem se sujeitar a aceitar as leis e as normas dos tais donos dos meios de produção.

Há uma parte da direita, que é extremista, radical, racista e feminicida – ao condenar a morte as mulheres, e por serem, por exemplo, contra o aborto e ao não condenar o machismo, que não aceita que as mulheres sejam donas de sua própria vida e que não merecem e não podem sofrer nenhum tipo de violência pelo fato de ser mulher.

E parte desta direita é que não aceita a possibilidade de que outros indivíduos que não pertençam ao seu convívio, ao convívio de sua classe social, possam ter alguma condição ou alguma possibilidade de ter uma pequena melhora ou expectativa de melhora de vida.

Esses indivíduos foram e continuam sendo, por exemplo, contra o programa Bolsa Família e contra as cotas raciais que objetivavam que indivíduos negros e negras tivessem acesso a universidade pública.

No entanto, entre essa parte da direita, que é extremista, radical e racista há diferença. Uma parte defende e quando tem a possibilidade, pratica a violência física e defende abertamente um regime militar, assim como defende o porte de armas, as idéias nazistas, a morte de quem defende a construção de uma sociedade civilizatória.

E mesmo entre tais extremistas, radicais e racistas há diferenças também, sejam elas poucas ou não. Isso é claramente o que se chama de fração de classe.

Uma parte da direita, no entanto, mesmo tendo ódio de classe, até aceita andar ao lado da esquerda em alguns momentos. E assim o fazem, por puro pragmatismo.

Quando esta parte (fração) da direita entende, por exemplo, que poderá ficar de fora de um governo, ele decide aliar-se pragmaticamente, visando beneficio próprio e também de classe, ao atuar por dentro do governo para que determinados programas e/ou


[1] VELASCO e CRUZ, Sebastião. Elementos de reflexão sobre o tema da direita (e esquerda) a partir do Brasil no momento atual, capítulo da obra Direita, volver!: o retorno da direita e o ciclo político brasileiro, organizadores: Sebastião Velasco e Cruz, André Kaysel e Gustavo Codas, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2015.


políticas públicas não sejam implementados. Foi essa fração da classe da direita que fez parte dos governos Lula e Dilma.

O campo da direita e suas frações de classe

E foram os mesmos que lá estiveram na movimentação, articulação e execução do golpe de Estado, via conspiração parlamentar, que destituíram a presidenta Dilma Rousseff da presidência da República via um impeachment sem fundamento e sem base legal.

André Kaysel , sobre as frações/divisões da direita, em relação ao período de 1945, contribui para nosso entendimento. Segundo Kaysel:

Dessa maneira, podemos dizer que haveria no Brasil de então duas “direitas” distintas: uma ligada ao programa varguista, respondendo por sua dimensão conservadora, bem representada pelo PSD, e outra, que lhe era oposta, encarnada sobretudo na UDN. Cabe destacar que os dois partidos, pela centralidade de suas bases rurais, eram partidos em grande medida complementares. Além disso, ambos possuíam um perfil conservador e oligárquico. p. 62

O entendimento acima é importante para ressaltar que apesar das frações de classe no campo político ideológico de direita, antes e no atual período histórico, assim como deverá ser em outros períodos históricos, em nada fragiliza ou põem em risco o fundamento político ideológico de que defendem que é o da existência e manutenção de uma sociedade alicerçada entre os que detém os meios de produção e a outra classe social que precisa se sujeitar a aceitar as leis e normas dos donos dos meios de produção, portanto, o princípio político ideológico fundante da direita, é a existência de uma sociedade dividida em classes sociais (burgueses versus trabalhadores).

As divisões/frações de classe da direita dão-se, em síntese, porque há setores econômicos ligados ao rentismo ou ao setor produtivo e entre aqueles que mais estão voltados ao mercado exportador e outros ao mercado interno. E também entre os nacionalistas (Getulio Vargas, regime militar de 1964) e os não-nacionalistas (Fernando Henrique Cardoso e o governo golpista de Michel Temer).

Mas todos defendem o mesmo princípio político ideológico fundante, que sintetizo por minha conta e risco, o que dizem Adriano Codato , Bruno Bolognesi e Karolina Mattos Roender sobre o que seria a nova direita brasileira, de que “Em resumo, a nova direita na América Latina é a uma postura política que conserva elementos da velha direita: o capitalismo como modelo econômico e preceitos morais tradicionais” p. 121.


[2] KAYSEL, André. Regressando ao Regresso: elementos para uma genealogia das direitas brasileiras, capítulo da obra Direita, volver!: o retorno da direita e o ciclo político brasileiro, organizadores: Sebastião Velasco e Cruz, André Kaysel e Gustavo Codas, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2015. 

[3] CODATO, Adriano; BOLOGNESI, Bruno; ROENDER, Karolina Mattos. A nova direita brasileira: uma análise da dinâmica partidária e eleitoral do campo conservador, capítulo da obra Direita, volver!: o retorno da direita e o ciclo político brasileiro, organizadores: Sebastião Velasco e Cruz, André Kaysel e Gustavo Codas, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2015.


O campo político da direita é partidariamente vasto, como por exemplo, podemos ver em Adriano Codato, Bruno Bolognesi e Karolina Mattos Roender:

O surgimento de um novo partido conservador em 2011, o PSD (Partido Social Democrático), liderado por Gilberto Kassab (dissidente do DEM), a força eleitoral do PSC (Partido Social Cristão), representando a comunidade evangélica e sua agenda moralizante, e a transformação do antigo PFL em DEM deram fôlego para a direita num contexto de hegemonia de governos de centro-esquerda.

O Partido da Frente Liberal, sócio majoritário da coalizão de governo durante as administrações de Cardoso (1995-1998; 1999-2002), alterou seu nome em 2007 para Democratas (DEM) numa tentativa de renovar sua imagem, seus quadros e voltar a terceira força política do País.

O PPB (Partido Progressista Brasileiro), herdeiro político da Arena e do PDS, partidos pós-ditadura, que apoiaram o ciclo de governos militares nos anos 1960-70-80, alterou seu nome para PP (Partido Progressista) em 2003 e ingressou na coalizão de apoio ao governo junto com o maior partido de esquerda do país, o Partido dos Trabalhadores (PT).

O Partido Liberal (PL), partido tradicional do empresariado nacional, e o Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona), um pequeno partido de extrema-direita, fundiram-se em 2006 para criar o Partido da República (PR) a fim de atingirem a cláusula de barreira, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), já fora da coalizão do primeiro governo Lula da Silva (2003-2006), incorporou o Partido dos Aposentados da Nação (PAN), p. 122-123.

Também é importante destacar que há os partidos de direita que usam em seu nome termos como “popular” e “socialista”, por exemplo, o Partido Popular Socialista (PPS), que é um partido de direita e suas ações no Congresso Nacional e nos três níveis federados, são de ataques a tudo o que poderia beneficiar a grande maioria das massas (popular).

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Em outras palavras, independente de nomes e termos que consta no nome do partido político, o que o faz ser um partido de esquerda ou de direita são suas ações/práticas que podem ser acompanhadas, por exemplo, nas votações no Congresso Nacional, seja em prol da mudança social para empoderar os que precisam se sujeitar a aceitar as leis e normas dos donos dos meios de produção, para tentarem se sustentar (trabalhadores e trabalhadoras) ou ações que visam perpetuar “o capitalismo como modelo econômico e preceitos morais tradicionais”, conforme vimos em Codato, Bolognesi e Roender.

As categorias profissionais, tais como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e as associações médicas nos estados, e associações de classe, tais como a Federação das Industrias do Estado de São Paulo (FIESP) e Confederação Nacional da Industria (CNI), são apenas exemplos de entidades que através de seus membros ou da maioria deles, no caso das categorias profissionais, e da praticamente totalidade das associações de classe, defendem posicionamentos favoráveis a existência da propriedade privada, da diminuição do tamanho do Estado, ao fim dos direitos e garantias trabalhistas e previdenciária para a grande maioria da população que precisa se sujeitar a aceitar as leis e normas dos donos dos meios de produção para poder tentar se sustentar.

Médicos e advogados, por exemplo, não são proprietários dos meios de produção, mas defendem e propagam politicamente e ideologicamente princípios, valores e moral dos que detém a propriedade dos meios de produção – os que fazem terem e serem indivíduos e entidades de direita.

Em uma nítida luta de classes, que é a confrontação política ideológica entre os dois pólos políticos ideológicos que estamos presenciando de forma explícita em nosso país, que culminou no golpe de Estado em 2016 e nas consequências políticas que são as destruições dos direitos e garantias até então constitucionais, tais categorias profissionais e associações de classe estiveram na defesa do referido golpe.

Golpe de Estado que influencia e beneficia o campo político da direita no cenário internacional, assim como influencia e beneficia geopoliticamente países e multinacionais, principalmente do setor do petróleo para com uma política cada vez mais de caráter excludente e reacionário em vários sentidos, mundo afora.

Cláudio Ritser - autor de Política sem Ilusão
Cláudio Ritser – autor de Política sem Ilusão

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