O movimento político dos caminhoneiros e posicionamentos da esquerda

O movimento político dos caminhoneiros e posicionamentos da esquerda – Setores dos trabalhadores que sobrevivem do trabalho em transporte de cargas, conhecido como caminhoneiros, começaram um movimento político em 21 de maio de 2018, bloqueando estradas e rodovias, motivados pela indignação dos sucessivos aumentos nos preços dos combustíveis, consequência da política de preços da Petrobras, que após o golpe de Estado de 2016, atrelou os preços a variação do preço do petróleo em nível internacional.

Eduardo Costa Pinto e Rodrigo Leão dizem que “Desde 20 de fevereiro, o preço da gasolina vendido pelas refinarias da Petrobras aumentou 35% saindo de 1,52 real o litro para 2,04 reais o litro. Somente no último mês, o aumento foi de 19%”.

Para os autores Eduardo Costa Pinto e Rodrigo Leão, esta política de preços da Petrobras não teria razão de ser, pois o Brasil, assim como outros países, “apresentam uma ampla capacidade de produção de derivados e não necessitariam recorrer às importações de derivados para abastecer seus mercados, com isso, “os preços podem responder muito mais à estrutura de custos e receitas das empresas produtoras dos combustíveis do que à variação do preço internacional”.

Outro fator determinante é a política da Petrobras em relação ao refino. Ou seja, a decisão da empresa em diminuir o uso do refinamento do petróleo bruto em suas refinarias e possibilitando a importação deste produto que tem preço internacional.

O movimento político dos caminhoneiros e posicionamentos da esquerda
O movimento político dos caminhoneiros e posicionamentos da esquerda

O movimento político dos caminhoneiros e posicionamentos da esquerda

Segundo Eduardo Costa Pinto e Rodrigo Leão “essa política de subutilização do refino, combinada com a política de paridade do preços, visa facilitar a venda desses ativos para as empresas estrangeiras, tornando o mercado de petróleo nacional ainda mais dependente do mercado e do preço internacional”.

Esta categoria profissional parece ignorar o fato político de que houve um golpe de Estado em 2016, no qual ela contribuiu ao fazerem, em 2015, mobilizações que pediam diretamente a destituição da presidenta eleita Dilma Vana Rousseff da presidência da República, e apresentam como pauta de seu movimento político de 2018 apenas pautas de sua categoria.

Diferentemente de 2015, em que a pauta era a destituição de Dilma. Segundo a BBC Brasil “A principal exigência é a queda no preço do óleo diesel: segundo os representantes dos transportadores, o custo atual do óleo torna inviável o transporte de mercadorias no país”.

Os custos que possuem, sobretudo, os trabalhadores autônomos desta categoria, são muito altos e encarecem os produtos para o consumidor final e tornam o rendimento do caminhoneiro cada vez menor.

A pressão política desta categoria ao bloquear estradas pelo Brasil inteiro durante dias, fez com que o governo, através da Petrobras que é uma empresa de economia mista no qual o governo federal é sócio majoritário, anunciou uma insignificante redução no preço dos combustíveis nas refinarias, que, para o consumidor final, praticamente não haveria redução alguma.

O movimento político dos caminhoneiros e posicionamentos da esquerda

José Roberto Castro diz-nos que “O governo diz que por enquanto ainda estuda alternativas e nega que tenha pedido à Petrobras para alterar sua política de preços”.

Essa política de preços implementada oficialmente em outubro de 2016 “ajudou a empresa a recuperar valor de mercado”, dessa forma, um dos discursos políticos de Michel Temer é de ter “salvado a Petrobras”, porque os preços dos combustíveis variam conforme as variações de preços no mercado internacional, fazendo com que o lucro da empresa aumente, e sendo repassado aos acionistas dividendos maiores.

O que faz a alegria do mercado.

Os governos Lula e Dilma, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), podem ser considerados “um divisor de águas no que se refere ao uso do poder de compras da Petrobras para dinamizar a indústria brasileira” fomentando a cadeia industrial puxada pela empresa que atua no setor de energia, de forma prioritária nas áreas de exploração,produção, refino, comercialização e transporte de petróleo, gás natural e seus derivados, diferentemente dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), no entanto, ainda conforme Cássio Garcia Ribeiro e Henrique T. Novaes (2014), foi nos governos Lula que foi dado continuidade ao projeto, iniciado durante o governo Cardoso, de atração de outras companhias para explorar e produzir petróleo no país e que foi ainda no governo Lula que ampliou-se “as “parcerias entre a Petrobras e outras empresas, em geral, menos lucrativas para a Petrobras ou mesmo onerosas (p. 44; 2014).

Após a descoberta do pré-sal o governo Lula articulou a proposta de lei do novo marco regulatório do setor e sua aprovação no Congresso Nacional visando fortalecer a Petrobras e o governo diante da riqueza energética oriunda desta descoberta.

Nesse cenário Cássio Garcia Ribeiro e Henrique T. Novaes (2014) entendem que salta aos olhos, ao menos do ponto de vista normativo, a preocupação do governo Lula em reforçar o papel do Estado brasileiro no marco regulatório criado após a descoberta do pré-sal” (p. 45).

No governo Dilma Rousseff o governo fez com que a Petrobras congelasse os preços, o que fez com que os opositores do governo e do Partido dos Trabalhadores acusassem o governo e o PT de estarem causando prejuízos a Petrobras.

O que de fato os opositores queriam, era justamente a política de preços que hoje está em vigor, no governo golpista de Michel Temer, que possibilita maiores repasses de dividendos aos acionistas privados, em detrimento ao sofrimento da população.

Ricardo Leães diz que “O que está havendo agora, na verdade, é uma socialização das perdas para o benefício dos acionistas da Petrobras”, não aos pequenos, que compraram “mil ações, mas aos grandes, que têm milhões e milhões de reais em ações”.

A categoria dos caminhoneiros, que são trabalhadores, mas não se enxergam como trabalhadores, foram uma das categorias que compraram o discurso contra os governos Lula e Dilma e contra o PT e se mobilizaram, em 2015, a mando dos empresários e da falta de consciência de classe, contra o governo encabeçado pelo PT.

Dessa forma, estes se tornaram inimigos de classe e não mais trabalhadores e trabalhadoras, haja vista que trabalhador e trabalhadora não atacam governos aliados, para beneficiar o campo político ideológico inimigo, tal qual aconteceu, por exemplo, no clima político ideológico que possibilitou a destituição da presidenta eleita Dilma Rousseff.

De acordo com Lilian Venturini, A atual greve não tem um comando unificado e começou com a mobilização de caminhoneiros autônomos.

Profissionais ligados a empresas aderiram à paralisação, cuja causa passou a ser apoiada também por transportadoras e associações empresariais”.

Ricardo Leães entende ser “impossível” que não tenha “tido uma organização por trás, com dinheiro e recursos suficientes para viabilizar esse projeto” do movimento político em questão, porque, entende Leães “Não tem como um movimento espontâneo parar um país inteiro deste tamanho. É muito rápido, muito difícil, ainda mais com precisão e a capacidade de execução que aconteceu”.

Ricardo Antunes, na BBC Brasil, também enxerga indícios de locaute nesse movimento dos caminhoneiros, que segundo ele “é uma greve que em poucos dias se tornou expressiva, e as empresas têm algo como 55% do controle desse transporte (frete rodoviário), muitas dessas paralisações podem ser decisão empresarial”.

No entanto, Ricardo Antunes diz que o restante, os 45% de caminhoneiros autônomos, são muito afetados pelo contexto de recessão, que diminui a circulação de mercadorias.

Eles já estavam ganhando muito pouco, e o preço do combustível explodiu”. Dessa forma, ele entende que “há uma espécie de confluência nesse momento entre os interesses de empresas e caminhoneiros”.

Outro ponto, que no meu entender é fundamental, e é o que expõe Ricardo Leães de que “o governo não vai mudar a política de preços da Petrobras, porque o grupo que sustenta o governo no poder são os empresários” que defendem a atual política de preços da Petrobras.

Sendo o motivo fundamental do golpe de Estado de 2016, que era realizar uma política que beneficiasse a classe econômica, sem que a classe econômica tivesse obstáculos, como, por exemplo, negociações sob diversos aspectos e áreas.

O movimento político dos caminhoneiros e posicionamentos da esquerda

João Paulo Charleaux, sobre a pauta dos caminhoneiros, diz que “A pauta parte da redução do preço do diesel, passa pelo preço do frete e do pedágio” e que tal movimento político não é liderada por nenhuma central sindical.

Sendo que “Os próprios caminhoneiros não erguem bandeiras de partidos, movimentos políticos ou balões infláveis com o logotipo de sindicatos ou confederações” e que eles, o movimento “Parecem descolados dos atores tradicionalmente envolvidos nas demandas trabalhistas, políticas ou sociais”.

Dentro do contexto apontado acima, por Charleaux, há o elemento que Larissa Jacheta Riberti traz de que “Em função da grande complexidade e fragilidade das lideranças sindicais de autônomos, o movimento carece de uma representatividade que possa assegurar as demandas da classe trabalhadora” e que em consequência deste fato, “os sindicatos patronais acabam por exercer maior influência, determinando os caminhos da negociação e o teor das reivindicações”, sendo, então, notada, por exemplo, “no tipo de reivindicação expressada por grande parte dos caminhoneiros que é a redução da tributação em cima do preço do combustível”, sendo que “o cerne do problema é a nova “política de preços adotada pelo governo Temer e pela Petrobras”.

Independentemente dos fatos trazidos por Larissa Jacheta Riberti, de que “Não existe uma pauta unificada, o movimento não é hegemônico, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista ideológico” é certo que em 2015 esta categoria profissional de caminhoneiros tinha uma pauta específica contra a presidenta Dilma e contra o Partido dos Trabalhadores, hoje, em 2018, a pauta é de categoria. Ou seja, atualmente, a pauta dos caminhoneiros não é contra o golpe de Estado.

Eu entendo e reconheço que a categoria dos caminhoneiros tem plenas condições de exercer seu poder político para pautar reivindicações frente a governos e à empregadores, no entanto, ações voluntaristas, sem representatividade significativa que unifique parte majoritária da categoria e sem apresentar pauta única e objetiva, tende a repetir as jornadas de junho de 2013, que abriu portas para políticas do campo radical da direita se apresentasse com seus discursos de ódio e tivesse base social e política para a movimentação, articulação e execução do golpe de Estado de 2016.

De lá para cá, são “consequências de tal golpe”. Sem uma luta clara e significativa de enfrentamento ou tentativa de enfrentamento ao golpe e aos golpistas, trata-se de meros expedientes de questões menores, haja vista que o motivo principal e fundamental, que neste caso é o golpe de Estado de 2016, não está sendo o alvo.

Dessa forma, seria uma estratégia de enxugar gelo, pois se faz “paralisações, greves, bloqueios de estradas para tentar obter alguma reivindicação das consequências do golpe, e não se ataca ou não se pretende atacar os reais motivos das consequências da indignação.

Neste momento, volto a repetir meu argumento, de que trabalhadores e trabalhadoras tem total direito de lutar frente a governos e à empregadores por melhorias nas condições de trabalho e salários, mas ao contribuírem com um golpe de Estado que é claramente à favor do capital contra a classe trabalhadora, independente de suas frações de classe, deixam de ser trabalhadores e trabalhadoras e passam a serem inimigas de classe.

Aí é que a esquerda ou os que se dizem de esquerda, se perdem, ao entenderem que quem contribuiu com o golpe de Estado de 2016, mesmo não lutando contra o tal golpe dois anos depois, mas apenas lutando contra as consequências do golpe de Estado dado em 2016, estariam em disputa ideológica entre a esquerda e a direita.

O mesmo entendimento aplicaram em 2013 quanto às jornadas daquele ano. Por mais que muitos ainda hoje não aceitem enxergar as consequências reais, ou seja, os resultados práticos das jornadas de 2013, elas foram as que contribuíram para se criar na sociedade a base social da direita que sustentou nas ruas o golpe de Estado em 2016.

Quando o movimento político dos caminhoneiros não levantam “bandeiras de partidos, movimentos políticos ou balões infláveis com o logotipo de sindicatos ou confederações”, como disse João Paulo Charleaux, assemelha-se às jornadas de 2013 e podem estar escondendo objetivos intrínsecos, e independente se conscientes ou não, em favor dos empresários e de políticas que irão prejudicar mais ainda políticas públicas na área social.

Em contexto de golpe de Estado, em que o radicalismo se faz presente, é fundamental que todo movimento político tenha como alvo os golpistas, objetivando retirá-los de onde estão.

Se assim não é ou não for, algo de estranho há com tal ou tais movimentos políticos.

O exercício de encontrar a essência de cada movimento político permite que não nos enganemos quanto aos seus objetivos políticos, na prática. O mesmo vale para governos, independente se há contradições ou não, mas a essência, o caráter de cada governo irá possibilitar enxergar de que lado ele irá beneficiar ou tentar beneficiar.

Michel Temer e seu governo existem porque são frutos de um golpe de Estado, que foi dado pela classe econômica para implementar de forma radical o neoliberalismo no Brasil.

Entender este fato, faz com que nós não tenhamos ilusões de que são greves, mobilizações, baixa popularidade e afins que irão derrubar um governo golpista.

Golpes de Estado só são derrubados com contragolpes, que são exercidos com tamanha violência igual ou superior aos aplicados pelos golpistas para tomarem o poder ou o governo.

Por isso, forças políticas de esquerda, seja organizações, Frentes, centrais sindicais e partidos políticos se enganam enormemente quando dizem que as eleições, com Lula candidato e possível presidente da República, serão o caminho para que a harmonia e a prosperidade voltem ao Brasil a partir de 2019.

A direita não permitirá a paz e a prosperidade. A luta árdua será de médio e longo prazo, e necessitará de direção política.

No curto prazo, o que nos espera, de acordo com entendimento que já expressei anteriormente, é a manutenção desta política neoliberal radical, independente de nomes que estejam a frente do governo e do futuro governo.

Referências:

BBC Brasil. Paralisação de caminhoneiros é um misto de greve e locaute, diz sociólogo do trabalho, entrevista com Ricardo Antunes, por Camilla Veras Mota, em 25/05/2018

BBC Brasil. Quem são e o que querem os caminhoneiros que estão parando o país? por André Schalders, em 24/05/2018

CASTRO, José Roberto. Por que a política de preços da Petrobras está em xeque Nexo, em 22/05/2018

CHARLEAUX, João Paulo. Como a greve de caminhoneiros é lida pela esquerda e pela direita, em 25/05/2018
PINTO, Eduardo Costa; LEÃO, Rodrigo. O que está por trás do aumento dos preços de combustíveis?, Carta Capital, caderno Economia, 24/05/2018

RIBEIRO, Cássio Garcia; NOVAES, Henrique T. Da “Lei do Petróleo” ao leilão de Libra: Petrobras de FHC a Dilma, Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, nº 39, outubro de 2014, Niterói/RJ.

RIBERTI, Larissa Jacheta. Greve dos caminheiros: “meu incomôdo com análises e percepções simplistas da esquerda”, Revista Forum, 26/05/2018

Sul 21. É impossível que não tenha ocorrido locaute’, diz cientista político sobre greve de caminhoneiros, entrevista com Ricardo Leães por Fernanda Canofre, em 26/05/2018.

VENTURINI, Lilian. O que é locaute. E o que caminhoneiros e empresários dizem sobre isso, Nexo, em 25/05/2018

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