O poder do discurso político palavras de ordem podem atrapalhar

O poder do discurso político – O discurso está em todos os sentidos de nossa vida social e privada e sua existência tem o objetivo de consolidar, reverenciar e perpetuar um determinado modelo de sociedade, que consequentemente irá refletir na vida privada.

De igual modo, há discursos que visam justamente confrontar, refutar e destruir um determinado modelo de sociedade e, consequentemente, uma determinada relação privada, de exploração, de humilhações, de racismo e de machismo, por exemplo.

Todo e qualquer discurso está baseado em uma determinada ideologia política, que é o que nos fôrma enquanto indivíduos vivendo em sociedade.

O poder do discurso político
O poder do discurso político

O poder do discurso político

Os discursos e sua ideologia política estão em toda produção humana como, por exemplo, nos livros, em letras de música, filmes, comerciais de televisão, em matérias jornalísticas ou tidas como jornalísticas, nos jornais, revistas, rádios e nos telejornais, assim como em programas televisivos em geral, como os de humor também, e nos diversos portais e sites da internet.

E, claro, em cada discurso de agentes políticos, sejam aqueles que são filiados a partidos políticos ou não, como muitos lideres religiosos e indivíduos na estrutura do Estado, como, nos discursos, opiniões e frases de efeito de juízes, procuradores, delegados, e assim por diante.

Em cada palavra, ato, expressão facial e corporal, evidenciam nas diversas situações do cotidiano a defesa ou não de um modelo de sociedade que além de preservar como algo natural a desigualdade social, defende também a exploração, a humilhação, o racismo, o machismo na relação privada também.

Nesse sentido, é preciso cuidar de cada palavra e suas implicações práticas e políticas ao se elaborar uma frase de efeito e passar a difundi-lo como bandeira política.

Da mesma forma é preciso cuidar do determinismo de tais frases e consequentemente de tais bandeiras políticas.

Um exemplo é a palavra de ordem “Não vai ter golpe”, que desconheço a autoria, que petistas e não petistas, mas indivíduos do campo de esquerda e progressista começaram a difundir, principalmente em 2016.

Entre os petistas que defenderam essa bandeira está a então presidenta da República, na época, Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O poder do discurso político

De acordo com o site do PT, Dilma Rousseff teria afirmado “Tenho certeza, não vai ter golpe”, durante encontro com juristas no Palácio do Planalto.

Também de acordo com o site do PT, o ex-presidente Lula teria enfatizado “Eu quero dizer pra vocês, olhando nos olhos de vocês, que não vai ter golpe”.

A frase foi dita em um ato na Avenida Paulista, em São Paulo, em defesa da democracia. O problema do slogan “Não vai ter golpe” é que ele é determinista, ou seja, ele determina, afirma que não terá um golpe.

E tal fato não estava na governabilidade do PT ou da esquerda, mas, sim, estava nas mãos da direita, que não só queria o golpe, mas como o executou e que continua a implementar sua agenda decorrente de tal golpe.

Em outras palavras, a frase de efeito, o tal slogan, era falso, pois houve sim o golpe.

A melhor frase, slogan, deveria ser “Não ao golpe”. Esta frase não é determinista, ela apenas aponta quem é contra o golpe.

Outra frase que está em vigor atualmente entre a maioria dos petistas e dos que estão no campo progressista, é de que “Eleição sem Lula é Fraude”.

Slogan que também desconheço a autoria. Alguns, assim como este que vos escreve, que não tiveram participação nenhuma na criação desta e nem em outras frases, entende que já que existe a frase acima, ela deveria ser “Eleição sem Lula é Golpe”.

Um dos problemas da frase é que ela rebaixa a condição de que uma eleição presidencial sem a presença de Lula candidato é “fraude” e não “golpe”.

Fraude seria algo menor, algo instrumental e não político. Dizer que eleição sem Lula candidato seria “golpe” é dimensionar assertivamente a importância da tentativa de impedirem que ele concorra ao pleito, por uma questão política e não meramente técnica ou instrumental.

Nesse sentido, já que existe tal slogan, entendo que a frase mais assertiva seria “Eleição sem Lula é Golpe”. Há, também, outro problema implícito em tal slogan, que dá a entender que, se eleição sem Lula é fraude, então o Partido dos Trabalhadores irá se abster de apresentar candidaturas caso Lula seja impedido de se candidatar.

A não ser que o PT decida participar de uma fraude. Na mesma linha política da frase “Eleição sem Lula é Fraude” esta as palavras da senadora e presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann, que escreveu “A candidatura de Lula é vital para a democracia. Sem ela, teremos a ilegitimidade do processo eleitoral e a continuidade da ruptura do pacto democrático que fizemos na Constituição de 1988: voto soberano e eleições livres!”.

Diante das palavras da presidenta nacional do PT, sem a candidatura de Lula nas eleições de 2018 “teremos a ilegitimidade do processo eleitoral”, ou seja, sem Lula candidato o processo é ilegítimo.

E caso Lula seja impedido de ser candidato o PT participará do processo eleitoral que está considerando “ilegítimo”?

Ou as palavras são apenas discursos políticos, frases de efeito, sem rastro na realidade? Ao fazer tal discurso e depois tomar decisão diferente (participar de eleição mesmo sem Lula como candidato, que é uma possibilidade) o Partido dos Trabalhadores não poderá reclamar e nem terá uma justificativa minimamente plausível que possa sustentar o discurso de agora, de que eleição sem Lula é fraude e que tal processo eleitoral, sem Lula, é ilegítimo.

O poder do discurso político

Em 2017, o governo de Nicolás Maduro havia decidido convocar uma Assembléia Nacional Constituinte (ANC) para a elaboração do novo texto da Carta Magna da Venezuela.

A oposição ao governo Maduro decidiu não participar do processo por considerarem “a convocação da Assembléia Nacional Constituinte uma ‘fraude eleitoral’, conforme o Opera Mundi.

O Opera Mundi cita o jornal Brasil de Fato, que teria consultado o deputado nacional oposicionista Juan Andrés Mejia, do partido Voluntad Popular.

O parlamentar teria negado “qualquer participação da MUD (Mesa da Unidade Democrática) no processo constituinte”.

De acordo com Juan Mejia, segundo Opera Mundi, “Ontem [31/05] houve uma reunião na qual estiveram mais de 20 partidos, e acordamos não participar da Assembléia Nacional Constituinte”.

A matéria diz ainda que “Os partidos da MUD consideram a assembléia uma “fraude eleitoral” e exigem de seus filiados que não se inscrevam para concorrer ao cargo de deputado constituinte”.

Na Venezuela, a oposição ao governo de Nicolás Maduro considerou a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte uma fraude e não participou do processo.

O poder do discurso político

Aqui, a esquerda está dizendo que eleição sem Lula é fraude e a presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores disse que sem a candidatura de Lula nas eleições de 2018 “teremos a ilegitimidade do processo eleitoral”.

A pergunta é: O PT vai bancar o discurso que está fazendo, tal qual fez os partidos de direita na Venezuela naquele momento?

Ou vai preferir a incoerência entre o discurso e a prática, dando motivos para que a direita ataque e exponha as contradições?

Entendo que a direção nacional partidária, assim como as direções em outros níveis, os mandatos, e os governos nos três níveis devem ser capazes de refletir politicamente e fazer um discurso condizente com a prática.

Mas para isso, precisam de indivíduos que não tenham medo de pensar politicamente. Quando alguém erra no discurso, acaba errando na política também. Essa é a consequência.

Se os opositores venezuelanos erraram politicamente em não terem participado da Assembléia Constituinte, ao menos foram coerentes com o discurso que fizeram na ocasião.

Caso haja no PT quem queira realmente disputar as eleições, nos três níveis, independente se tiverem Lula ou não como candidato, deve refutar energicamente o discurso de que eleição sem Lula é fraude e que sem a candidatura de Lula o processo eleitoral será ilegítimo.

O poder do discurso político

Muitos poderão continuar a difundir a frase bandeira do momento, de que Eleição sem Lula é Fraude, e adiante poderá se inscrever para disputar eleições ou para tentar a reeleição, com a justificativa de que a participação nas eleições que consideram fraude é um mal necessário, porque sem eles no Parlamento será muito mais fácil a implementação da agenda neoliberal.

No entanto, as bancadas do PT, do PCdoB, do PSOL lá estão no Congresso Nacional, e mesmo assim, o golpe foi dado e a agenda da direita segue sendo implementada a todo vapor.

A possível justificativa, como estamos vendo, não se sustenta.

Diante do exposto, é que faço questão de repetir uma frase que redigi no início deste texto, de que é preciso cuidar de cada palavra e suas implicações práticas e políticas ao se elaborar uma frase de efeito e passar a difundi-la como bandeira política.

Da mesma forma é preciso cuidar do determinismo de tais frases e, consequentemente, de tais bandeiras políticas.

Referências:

 

Opera Mundi. Política e Economia. Venezuela: oposição decide que filiados à MUD não concorrerão a cargos de deputados constituintes, por Jônatas Campos do Brasil de Fato, em Caracas, em 02/06/2017

 

Artigos. Gleisi: “defender Lula, garantir sua candidatura e denunciar o golpe”, em 05/02/2018.

 

Movimentos Sociais. Não vai ter golpe, afirma Lula a multidão em São Paulo, em 18/03/2016.

 

Política. Tenho certeza, não vai ter golpe”, afirma Dilma, em 22/03/2016.

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